Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário
Foto: Bruno Cruz

Plenária Sul discutiu ACT, antirracismo, igualdade de gênero, emergência climática, “fake news” e saúde mental

27 de abril de 2026
Por: Bruno Cruz / Edição: Camila Bordinha

Além de debater a mobilização e a negociação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), delegados e delegadas da 28ª Plenária Regional Sul do SINPAF tiveram a oportunidade de se aprofundar em temas como igualdade de gênero, antirracismo, emergência climática e combate às “fake news”. Para o presidente do SINPAF, Jean Kleber de Sousa Silva, as Plenárias se reafirmam como espaços de formação de lideranças e reforçam o papel do movimento sindical de elaborar política sobre temas que atravessam toda a sociedade, inclusive, o trabalho nas empresas de pesquisa agropecuária.

Na avaliação do presidente do SINPAF, ainda persiste, em parte da categoria, a percepção de que as discussões devem se concentrar apenas em pautas imediatas, como os planos de saúde e os fundos de pensão. No entanto, há cerca de cinco a seis anos, o sindicato vem promovendo o debate de temas transversais com um objetivo formativo. Porque tanto na Embrapa quanto na Codevasf tem homofobia e racismo, e isso reflete diretamente no nosso trabalho”.

MOBILIZAÇÃO NA BASE E BUROCRATIZAÇÃO DA NEGOCIAÇÃO DO ACT

Ainda de acordo com Jean Kleber, as pautas que encontram mais resistência por parte das empresas na mesa de negociação são o reconhecimento da escolaridade, o adicional de qualificação e a possibilidade de assistentes e técnicos constarem nas publicações científicas. Além disso, a burocratização do processo de negociação com uma comissão que não tem autonomia e a necessidade de passar por outras instâncias, como o Comitê de Auditoria, o Consad e depois o próprio Ministério de Gestão e Inovação (MGI), atrasam o fechamento do acordo.

Ainda que o SINPAF esteja conseguindo abrir espaços de diálogo dentro do Governo, por exemplo, com a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest/MGI), a direção nacional do Sindicato está organizando as assembleias de mobilização da base no próximo dia 29 de abril. A ideia é demonstrar força e unidade para pressionar as direções das empresas, mas também, dialogar com a sociedade sobre a importância da ampliação dos investimentos em pesquisa agropecuária para a soberania e independência do país.

NR1: RISCOS PSICOSSOCIAIS À SAÚDE MENTAL NO TRABALHO

No dia 25 de abril, a mesa intitulada “a importância da NR1 no combate ao assédio, construção de ambientes saudáveis e trabalho digno” foi mediada pelo diretor nacional de saúde do trabalhador do SINPAF, Pedro de Souza Melo, e contou com a participação de Alex Fonseca e Josilene Sales, presidente e técnica do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat).

De acordo com Josilene, uma questão importante trazida pela atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR1), que estabelece as disposições gerais e os requisitos mínimos para a gestão de segurança e saúde no trabalho no Brasil, é a inclusão da gestão dos riscos psicossociais à saúde mental nos ambientes de trabalho. Essa é uma questão que tem atingido o setor de pesquisa agropecuária, inclusive com casos de suicídio, e precisa ser melhor trabalhada pelas empresas do setor.

ANTIRRACISMO E IGUALDADE DE GÊNERO

Ainda no primeiro dia da Plenária, as pesquisadoras Vera Fátima Gaspareto e Thais Bonato Gomes, do Instituto de Estudos de Gênero e do Améfrica, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), participaram da mesa “sem igualdade de gênero e combate ao racismo não há democracia”, mediada pela diretora da Mulher do SINPAF, Silvana Buriol, e pelo diretor administrativo e financeiro do SINPAF, Zeca Magalhães.

Além de trabalhar com dinâmicas que ajudaram delegadas e delegados a identificarem o sexismo e o racismo em situações do cotidiano e em gestos que são habitualmente naturalizados pela maioria das pessoas, as pesquisadoras apontaram como os dois tipos de preconceito foram forjados e são alimentados pelo processo de produção capitalista. Tanto o trabalho escravizado quanto a exploração do trabalho doméstico e reprodutivo fizeram parte da chamada acumulação primitiva de capitais que foi fundamental para o atual modo de produção.

Durante o debate, muitas falas apontaram que, mesmo em empresas públicas como a Embrapa e a Codevasf, a proporção de pessoas negras é muito menor do que a encontrada na sociedade. As delegadas trouxeram a informação de que, apesar de homens e mulheres iniciarem as carreiras públicas com os mesmos salários, os homens são promovidos com mais velocidade, pois fatores como licença maternidade e o trabalho de acompanhamento de filhos ainda recai sobre as mulheres.

EMERGÊNCIA CLIMÁTICA

Ao final do dia 25 (sábado), ainda houve tempo de a secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), Maria Elisa Máximo, e de o presidente do Sindicato dos Professores e Professoras das Universidades Federais de Santa Catarina (APUFSC-Sindical), Carlos Alberto Marques, mais conhecido como “Bebeto”, falarem na mesa “Soberania nacional e emergência climática: o papel da pesquisa e do desenvolvimento regional público.”

Maria Elisa mostrou como o debate ideológico contra o chamado “negacionismo” tem influenciado negativamente no investimento em pesquisas científicas no Brasil e indicou o papel do movimento social nesse processo. Bebeto afirmou que enquanto a ecologia estiver submetida pela economia e não o contrário, o planeta e quem vive nele vão sofrer com as crises ambientais.

COMBATE ÀS “FAKE NEWS”

O segundo dia da Plenária, 26 de abril, foi aberto com a mesa “comunicação não violenta e fake news” que contou com a participação da antropóloga e pesquisadora da UFSC, Letícia Cesarino, e foi mediada pelo diretor de comunicação do SINPAF, Raul Costa Mascarenhas.

Letícia alertou para a lógica acelerada das redes, sobretudo, para entidades sindicais e de classe, dependentes de debate e decisões coletivas que levam mais tempo para serem elaboradas. Entretanto, a pesquisadora da UFSC reforçou a necessidade de o movimento sindical entender esses processos para reforçar a presença nas redes sociais e na guerra de narrativas que se produz nesse ambiente, mas sem deixar a lógica da forma contaminar o conteúdo.

MOÇÃO DA MULHER AGRICULTORA

As delegadas da Seção Sindical de Concórdia, Mariana Marques, Ivane Müller e Fabiane Antes, apresentaram uma moção de apoio ao Ano Internacional da Mulher Agricultora exaltando o papel central das mulheres rurais na agricultura familiar e na sucessão no campo. O texto da moção foi lido por Mariana e aprovada de forma unânime pelos delegados e pelas delegadas da Plenária Sul.

PLENÁRIA SUL DO SINPAF PERMANECE NA ESCOLA SINDICAL DA CUT EM FLORIANÓPOLIS

Ao final, Felipe Haubert Pilger e Fabiane Goldschimidt Antes, diretores regionais do SINPAF que coordenaram os dois dias de trabalho, apresentaram orçamentos e considerações sobre uma possível mudança no local para a realização da próxima Plenária Sul. Contudo, ao final do debate, a Escola Sindical Sul da CUT, em Florianópolis, acabou sendo eleita para sediar a 29ª edição do evento, por unanimidade.

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