Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário
Mulheres presentes no Congresso Nacional fizeram ato simbólico para lançar a campanha contra a violência.

Entre girassóis e resistência, Congresso do SINPAF une simbolismo e chamado à ação

Debates sobre igualdade de gênero, combate ao racismo, reforma administrativa e desenvolvimento científico deram o tom durante a tarde do primeiro dia do evento

29 de maio de 2026
Por: Ana Flávia Flôres

Em uma tarde marcada por importantes debates e reflexões sobre temas estratégicos para os contextos social e trabalhista, o 14º Congresso Nacional do SINPAF reservou espaço para um momento de forte simbolismo. Em um gesto simples, mas de grande representatividade, todas as congressistas receberam uma bandana roxa estampada com a marca da campanha “Mulheres que movem a ciência e o desenvolvimento do Brasil”, lançada em 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, pelo Sindicato.

Para a ação realizada durante o evento, a peça ganhou o acréscimo da frase “Pelo fim da violência contra as mulheres”, reforçando o compromisso da organização sindical com o enfrentamento das múltiplas formas de violência contra as mulheres e com a construção de ambientes mais seguros, respeitosos e igualitários.

A iniciativa tem como símbolo o girassol, escolhido em homenagem a Neuza Pereira, funcionária do SINPAF Nacional que faleceu há poucos meses e que nutria profunda admiração pela flor. Além da referência afetiva, o girassol também representa a força, a resiliência e a capacidade de inspirar e transformar realidades.

Gênero e racismo

A entrega das bandanas aconteceu logo após o encerramento do painel “Sem igualdade de gênero e combate ao racismo não há democracia plena”, que teve Thaisa Magalhães, diretora de Formação Sindical do Sinpro/DF e secretária da Mulher Trabalhadora da CUT/DF, e a escritora Daniela Torres como convidadas. A atividade foi coordenada por Silvana Buriol, diretora adjunta da Mulher Nacional do SINPAF, e por Zeca Magalhães, diretor Administrativo e Financeiro Nacional do SINPAF.

Militante do movimento feminista, Thaisa abordou os desafios enfrentados pelas mulheres nos ambientes de trabalho e dentro das próprias organizações sindicais. Ela ressaltou a importância de transformar discussões sobre machismo, misoginia, assédio e violência em práticas permanentes de acolhimento e enfrentamento, destacando que a organização das mulheres nos locais de trabalho e nos sindicatos é fundamental para ampliar a proteção e garantir avanços concretos.

Já Daniela conduziu uma fala profundamente pessoal e provocadora ao abordar o racismo estrutural e as formas silenciosas pelas quais ele se manifesta no cotidiano. “O racismo no nosso país é feito por gente boa, que está na universidade, nos sindicatos, nas escolas, mas acha que não é problema seu combater o racismo”, afirmou. Segundo a escritora, os cenários de desigualdades atravessam a sociedade brasileira e os espaços de trabalho, inclusive aqueles comprometidos com pautas progressistas, motivo pelo qual o enfrentamento ao racismo deve ser uma responsabilidade coletiva.

Ao compartilhar sua própria trajetória de embranquecimento e descoberta da identidade racial, Daniela destacou que o silêncio diante das microviolências contribui para a manutenção das desigualdades e convidou os participantes a refletirem sobre quem ocupa os espaços de poder, liderança e produção de conhecimento.

Pressão contra a reforma administrativa

A mesa “Relações institucionais: fortalecer as empresas públicas e combater a reforma administrativa” trouxe alertas sobre os riscos que ainda cercam a proposta de reforma administrativa e reforçou a necessidade de mobilização permanente em defesa do serviço público. A secretária de Finanças da CNTE, Rosilene Corrêa, destacou que “o fato de não terem colocado ainda a reforma administrativa para votação não significa que os parlamentares concordaram com a retirada do assunto da pauta”, afirmou.

Ao defender a valorização dos servidores públicos e o fortalecimento das carreiras de Estado, ela criticou a tentativa de descredibilizar os serviços públicos perante a sociedade. “Na pandemia tivemos a maior prova de que é o serviço público que atende a população como ela merece e tem por direito ser atendida”, ressaltou. Para a dirigente, o desafio é manter o debate vivo e impedir que a proposta avance no Congresso Nacional.

Já o deputado federal Rodrigo Rollemberg destacou a importância estratégica das empresas públicas para a soberania e o desenvolvimento do país. “O que seria do Brasil sem a Embrapa, a Petrobras, a Embraer? Estaria longe de ter o desenvolvimento e a qualidade de vida que temos hoje”, afirmou. Ao abordar o cenário internacional, destacou o potencial brasileiro na área de minerais críticos e terras raras e defendeu a importância de o país transformar a sua riqueza mineral em produtos com alto valor agregado.

Sobre a reforma administrativa, ele alertou que a proposta continua representando uma ameaça, apesar das recentes derrotas políticas sofridas por seus defensores. “Temos na Câmara dos Deputados uma maioria conservadora que, sem a pressão da opinião pública, essa PEC passaria com certa tranquilidade. O que pode evitar que ela avance é a mobilização popular, a pressão em cima dos parlamentares nos seus estados”, afirmou. A mesa foi coordenada por Waltterlenne Lima, diretor de Assuntos Institucionais Nacional do SINPAF.

Pesquisa e desenvolvimento regional

Sob coordenação do diretor de Ciência e Tecnologia Nacional do SINPAF, Vinicius Vidal, a mesa contemplou a defesa apaixonada de uma ciência comprometida com os interesses da classe trabalhadora, das populações dos territórios e da segurança alimentar. Representando o MST/DF, Marco Antônio Barato destacou que a pesquisa pública precisa ser democratizada e integrada ao conhecimento popular. “Agroecologia nada mais é do que a mescla do conhecimento popular com a ciência”, afirmou.

Na avaliação dele, a soberania científica passa pelo reconhecimento das populações como sujeitos ativos da produção do conhecimento e pela valorização das diversidades culturais, sociais e agrárias de cada região brasileira. O dirigente também defendeu o fortalecimento da pesquisa voltada à transição agroecológica, à superação do uso intensivo de agrotóxicos e ao enfrentamento dos modelos concentradores no campo.

No mesmo painel, Gilberto Lacerda Santos, secretário regional da SBPC/DF, apresentou a atuação histórica da entidade na defesa da ciência e da tecnologia nacionais. Ele destacou que, para a entidade, a soberania brasileira está fundamentada em três pilares centrais: independência, democracia e autonomia estratégica. Gilberto também ressaltou que a pesquisa agropecuária ocupa papel fundamental nesse processo, especialmente quando associada à justiça social, à transição ecológica e ao fortalecimento da agricultura familiar.

Sobre o Congresso

Com o tema “Trabalho digno, democracia plena e nação soberana”, o 14º Congresso Nacional do SINPAF acontece em Brasília/DF, entre os dias 28 e 30 de maio de 2026. Participam do evento cerca de 200 delegadas e delegados, representantes das 52 Seções Sindicais distribuídas nas cinco regiões do país.

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