Conjuntura da luta trabalhista engloba soberania, geopolítica e o futuro da democracia
Debate realizado no 14º Congresso do SINPAF provocou a reflexão sobre cenário internacional, eleições de 2026, fortalecimento sindical e defesa das empresas públicas
Por: Ana Flávia Flôres
O painel de análise de conjuntura do 14º Congresso Nacional do SINPAF promoveu um amplo debate sobre os desafios políticos, econômicos e sociais que atravessam o Brasil e o mundo na atualidade. Coordenada por Jean Kleber de Sousa Silva, presidente nacional do Sindicato, a atividade reuniu o consultor em finanças e planejamento estratégico José Kobori e o presidente estadual da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, em uma discussão marcada pela defesa da soberania nacional, das empresas públicas e dos direitos da classe trabalhadora.
Brasil no centro das disputas globais
Ao analisar o cenário internacional, José Kobori afirmou que o mundo vive um período decisivo de reorganização geopolítica, marcado pela tentativa dos Estados Unidos de manter sua hegemonia econômica e política diante do avanço chinês. Segundo ele, os conflitos internacionais recentes precisam ser compreendidos dentro dessa lógica de disputa global. “Não existe novidade na geopolítica mundial, os EUA vão sempre tentar barrar qualquer país que ameace a sua hegemonia”, afirmou.
Kobori também criticou o discurso neoliberal que desconsidera o papel estratégico do Estado no desenvolvimento econômico e utilizou a Embrapa como exemplo da importância da ciência pública para a competitividade brasileira. “Mais da metade da nossa pauta de exportações é o agronegócio, e ele só é competitivo por conta da Embrapa, o que contradiz o mito de que é a iniciativa privada que produz competitividade”, destacou.
O consultor ressaltou ainda o potencial geopolítico brasileiro diante da valorização internacional das commodities, do petróleo e das terras raras. Para ele, o país possui instrumentos estratégicos fundamentais para fortalecer sua soberania econômica. “Temos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás somente da China. É um trunfo geopolítico que temos neste momento; é poder, é soberania”.
Redução da jornada de trabalho
O presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, centrou sua análise no cenário político brasileiro e nas recentes conquistas da classe trabalhadora, especialmente a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados. Em tom enfático, ele classificou a votação como uma conquista histórica construída ao longo de décadas pelo movimento sindical.
“A CUT foi fundada sob a bandeira da redução da jornada de trabalho. O primeiro cartaz da mobilização nacional da CUT é sobre a redução para 40 horas. E isso tem 43 anos”, lembrou. Segundo Rodrigo, embora o texto aprovado esteja distante do ideal defendido pelos trabalhadores, ele representa um avanço concreto na disputa por melhores condições de vida. “Ontem demos um passo importante porque estamos tratando do direito ao tempo da vida do trabalhador, do tempo para sua própria vida e não à dedicação total ao trabalho”.
O dirigente também destacou que a discussão sobre jornada de trabalho está diretamente ligada ao debate sobre dignidade humana, qualidade de vida e valorização do trabalho. “Quando reduzimos o tempo de trabalho estamos fazendo uma disputa da própria mais-valia”, pontuou.
Movimento sindical, democracia e soberania
Ao abordar o fortalecimento do movimento sindical, Rodrigo Rodrigues afirmou que as negociações em torno da nova jornada de trabalho reforçam o papel estratégico dos sindicatos nas relações trabalhistas. “O fortalecimento do movimento sindical dentro do processo negocial é um processo de fortalecimento também da democracia. Não existe democracia sem que os trabalhadores não tenham capacidade de negociação real”.
Em outro momento da fala, o dirigente relacionou diretamente a defesa das empresas públicas ao projeto de soberania nacional, utilizando os Correios como exemplo da importância dessas instituições para a capacidade operacional do Estado brasileiro. “A única empresa que está presente em 100% dos municípios são os Correios. Uma empresa como os Correios apresenta a capacidade do país de tomar decisões”, afirmou.
Ao citar a Embrapa e a Codevasf, Rodrigo reforçou que o desenvolvimento agrícola brasileiro depende diretamente da atuação das empresas públicas e da valorização de seus trabalhadores. “O agro só é o principal responsável pelo PIB brasileiro porque tem uma empresa pública que trabalha para dar soberania econômica a este país”.
Eleições de 2026
As eleições que acontecerão em outubro foram outro eixo central das análises apresentadas durante o painel. Rodrigo Rodrigues alertou para o ambiente de intensa polarização política e para os desafios relacionados às fake news, à inteligência artificial e às tentativas de interferência externa no processo eleitoral brasileiro.
Para ele, as conquistas recentes da classe trabalhadora somente são possíveis dentro de um projeto político comprometido com justiça social, fortalecimento do Estado e valorização do trabalho. “Só tivemos ontem uma vitória na Câmara e só vamos discutir melhores condições de trabalho se tivermos um governo que esteja vinculado a esse projeto”, concluiu.
Sobre o Congresso
Com o tema “Trabalho digno, democracia plena e nação soberana”, o 14º Congresso Nacional do SINPAF acontece em Brasília/DF, entre os dias 28 e 30 de maio de 2026. Estão presentes ao evento cerca de 200 delegadas e delegados, representantes das 52 Seções Sindicais distribuídas nas cinco regiões do país.

