30ª Plenária Norte do SINPAF fortalece luta sindical na Amazônia com debates sobre gênero, racismo e clima
Delegados e delegadas de diferentes estados da região Norte compartilharam experiências e propostas para fortalecer a organização sindical e enfrentar os desafios sociais, ambientais e trabalhistas no país
Por: Nicoly Ambrosio / Edição: Camila Bordinha
Manaus (AM) – Nos dias 13 e 14 de março, Manaus (AM) recebeu a 30ª Plenária Regional Norte do SINPAF, realizada no Palacete Provincial, localizado na Praça Heliodoro Balbi, centro da capital amazonense. Mais de 14 mesas, palestras e apresentações culturais fizeram parte da programação do encontro, que reuniu delegados e delegadas da região para dois dias de debates sobre temas que atravessam o mundo do trabalho e a realidade social brasileira, como igualdade de gênero, racismo, direitos das mulheres, combate ao assédio no ambiente de trabalho, saúde mental dos trabalhadores e emergência climática.
O encontro foi o pontapé inicial de uma jornada nacional que percorrerá todas as regiões do país ao longo de 2026, com o objetivo de consolidar as propostas da categoria para o 14º Congresso Nacional do sindicato. Ao todo, 20 delegados e delegadas participam das discussões, representando as seções sindicais do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins.
As atividades foram coordenadas pelos diretores regionais Norte do SINPAF, Michele Fernandes Pereira e Valterlei José de Moura, e fazem parte de um processo democrático de diálogo e construção coletiva da categoria. Durante as plenárias regionais, representantes das empresas da base do sindicato, como Embrapa, Codevasf, Pesagro e Empaer, compartilharam experiências, debateram desafios e apresentaram propostas que irão orientar a atuação do sindicato nos próximos anos.
Neste ano, o SINPAF também soma forças à mobilização nacional pela redução da jornada de trabalho de 6×1 para 5×2, uma pauta histórica do movimento sindical voltada à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, à redução do adoecimento físico e mental e à construção de relações de trabalho mais humanas. Segundo a diretora regional Michele Fernandes Pereira, os temas discutidos foram fundamentais para os filiados do SINPAF, como forma de levar as bases das resoluções que falam do lugar da mulher na sociedade e a soberania da democracia.
“Anualmente, a gente se encontra para debater esses temas e trazer melhoria para os nossos filiados e para a nossa empresa, porque o trabalhador satisfeito se desenvolve melhor e desempenha melhor o seu trabalho”, disse.
Para o diretor regional Valterlei José de Moura, as plenárias regionais consolidam os resultados de todo o trabalho que o sindicato tem feito nas bases ao longo do último ano. É uma forma de conseguir propor mudanças significativas na atuação do sindicato a partir das discussões do congresso nacional.
“Essa plenária é importantíssima porque temos vários temas que estão sendo abordados na atualidade, principalmente feminicídio, trabalho coletivo e sindicalismo. Essas pautas são significativas porque estamos levantando como bandeiras em defesa da luta da trabalhadora e do trabalhador”, declarou Valterlei durante o encontro.
Desafios marcam a conjuntura política

A manhã do primeiro dia da plenária, na sexta-feira (14), começou com o credenciamento dos participantes e a mesa oficial de abertura. O presidente do sindicato, Jean Kleber de Sousa Silva, reforçou a importância de iniciar o ciclo de plenárias pela Amazônia, reforçando a integração regional e a continuidade dos debates iniciados na plenária anterior, realizada durante a COP30, em Belém (PA).
“As falas aqui nesta mesa reforçam que acertamos em cheio ao escolher a temática do nosso congresso, desdobrando em nossas plenárias a Soberania Nacional, que só se constrói com a luta do povo. A Democracia Plena, que retrata o cenário que estamos vivendo e o que vivemos no governo da extrema-direita e que agora teremos que lutar novamente para manter a democracia. E o Trabalho Justo, onde trazemos aqui o debate da escala 6×1, mas também o aprofundamento da discussão sobre a NR1”, afirmou o presidente.
A mesa de abertura reuniu representantes políticos, gestores públicos e lideranças sindicais, como o vereador José Ricardo (PT-AM), o deputado estadual Sinésio Campos (PT-AM), o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Amazonas, Valdemir Santana, e Simone Alves, presidenta da Seção Sindical Amazonas.
Além disso, o encontro foi marcado pela presença de representantes da gestão pública e da pesquisa, entre os quais, a Superintendente do Trabalho e Emprego do Ministério do Trabalho e Emprego no Amazonas (MTE-AM), Francinete Lima, e a chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Amazônia Ocidental, Kátia Emídio da Silva.
Em sua fala, Francinete Lima alertou para a importância de valorizar os trabalhadores e fortalecer os sindicatos diante das transformações no mundo do trabalho. Segundo ela, debates sobre redução da jornada, digitalização e saúde do trabalhador são cada vez mais urgentes, especialmente diante do aumento de adoecimentos físicos e mentais. Francinete, que é a primeira mulher a ocupar a Superintendência Regional do Trabalho no Amazonas, também ressaltou que a pasta tem buscado ampliar o diálogo com as entidades sindicais para enfrentar os impactos das reformas trabalhistas e garantir melhores condições de trabalho.
“Se hoje nós temos um número muito grande de pessoas que estão afastadas do ambiente de trabalho, é por conta desse desmonte que a gente teve aí desde a reforma trabalhista de 2017, onde vários trabalhadores foram afetados. Foi um ataque às instituições, aos sindicatos. Tiveram sindicatos que fecharam as suas portas porque realmente não conseguiram ficar de pé sem auxílio financeiro para se manter. Foi disseminada tanta informação errada, tanta coisa ruim contra o sindicato, que muitos deles fecharam e não conseguiram ficar na luta”, disse.
Na sequência, a mesa de análise de conjuntura política discutiu os desafios enfrentados pela categoria em um cenário marcado por tensões geopolíticas, mudanças climáticas e precarização das condições de trabalho. Participaram do debate o vereador José Ricardo (PT-AM), o secretário-geral do Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Amazonas (SINDSEP-AM), Walter Matos, e o presidente do sindicato, Jean Kleber.
Os participantes destacaram preocupações com o cenário político das próximas eleições, com uma possível volta da extrema-direita ao poder e a possibilidade de perder as conquistas trabalhistas realizadas nos últimos anos, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“A direita não quer saber do trabalhador, ela quer saber de empresário. E nós temos que ficar de olhos bem abertos porque Trump vai tentar interferir nas eleições deste ano no Brasil. Já estão falando em ataque na América Latina. Nós precisamos compreender essa luta, estamos na classe dos trabalhadores, e o terreno que nós temos para defender isso é no governo Lula”, disse Walter Matos.
Para o vereador José Ricardo, é importante reforçar a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à Ciência, ao conhecimento e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. “Precisamos insistir que o orçamento contemple o segmento do conhecimento porque é o caminho para buscarmos o desenvolvimento sustentável numa região onde a cobiça internacional é muito grande para as riquezas. Há necessidade de engajamento político e conscientização esse ano, pois muitas pessoas ainda estão influenciadas por fake news e acabam defendendo pensamentos da extrema-direita”.
A plenária avançou nos ritos de organização interna pela manhã, com a eleição do secretariado e a aprovação do regimento interno do encontro. O secretário eleito, Elanderson Soares Lima, que faz parte da Seção do Pará, ressaltou que essa etapa é essencial para garantir que as demandas das seções sindicais da região Norte sejam incorporadas ao Plano de Luta Nacional do sindicato.
“É um processo importante para que a plenária possa fluir de maneira democrática e produza um efeito de ampliar o debate, principalmente nas causas internas das nossas empresas, de forma a trazer mais qualidade nos debates e também uma fundamentação melhor para que todo mundo saia bem esclarecido e leve esse debate para suas bases”, afirmou Elanderson.
Gênero, racismo e democracia no centro do debate

Ainda no primeiro dia de discussões, pela tarde, a 30ª Plenária Regional Norte do SINPAF seguiu as deliberações com uma mesa sob o tema “Sem igualdade de gênero e combate ao racismo não há democracia plena”, que chamou atenção para a necessidade de incluir questões de gênero e raça no debate sobre democracia, destacando a importância da representatividade e do acesso a direitos.
O Diretor Nacional Administrativo-Financeiro do SINPAF, Zeca Magalhães, abriu a mesa e ressaltou que muitas vezes a democracia é associada apenas às regras eleitorais ou institucionais, mas o conceito vai muito além disso.
“Para poder avançar para uma democracia plena, temos que ter as representatividades, tanto no cenário político como na questão de acesso aos direitos e à segurança física, principalmente das mulheres. A questão da violência contra mulher está em alta, infelizmente. Todo dia a gente ouve falar de feminicídio, de uma situação de violência contra a mulher”, ressaltou Magalhães.
A professora Iolete Ribeiro, do Núcleo de Estudos Afro-Indígenas do curso de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (NEAINC/UFAM), afirmou que sua trajetória no debate sobre desigualdades começou nos anos 1990, quando atuou no enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS no Brasil. Segundo a especialista, naquele contexto ficou evidente que o combate à doença exigia discutir gênero, violência e desigualdades sociais, o que posteriormente também a levou a aprofundar o debate sobre racismo e outras formas de discriminação, como as direcionadas às pessoas indígenas e LGBTQIA+, fundamentais para compreender as desigualdades estruturais no país.
Iolete também destacou que muitas violências associadas ao racismo e ao machismo se manifestam de forma subjetiva e psicológica, por meio de olhares, comentários e julgamentos que fazem com que as vítimas duvidem de si mesmas e de sua própria percepção da realidade. Segundo Ribeiro, as chamadas “microviolências” podem gerar sofrimento e adoecimento, além de dificultar que as pessoas reconheçam e denunciem as agressões, o que acaba contribuindo para a manutenção dessas estruturas de opressão.
“Não é possível pensar uma sociedade democrática, igualitária, sem discutir essas estratégias de hierarquização das pessoas, que colocam algumas na condição de mais humanas e outras menos humanas. Se reduz muito esse debate quando chamam de identitarismo. A gente naturaliza algumas violências, isso é histórico no nosso país. Porque esses processos de hierarquização, são no fundo uma disputa de poder. É muito importante que a gente discuta o racismo, o capacitismo, que é o preconceito em relação às pessoas que têm deficiência, o machismo, o classicismo. Todos esses processos sustentam a desigualdade social”, manifestou a especialista.
Com uma performance teatral impactante, a atriz, historiadora, professora e ativista do Movimento das Mulheres Negras da Floresta – Dandara, Francy Júnior, chamou atenção para a brutalidade dos feminicídios no Brasil e para a urgência de enfrentar a violência contra as mulheres. Durante a intervenção, ela citou casos recentes que chocaram o país, como o feminicídio de Tainara Souza Santos, de 30 anos, arrastada por um carro na Marginal Tietê, na zona norte de São Paulo (SP), em dezembro de 2025. O crime, cometido por Douglas Alves da Silva, simboliza a escalada da violência de gênero no país.
Em sua fala, Francy Júnior questionou os limites da democracia diante da realidade vivida por muitas mulheres no Brasil, especialmente nos territórios onde o Estado não consegue garantir proteção e acesso a direitos. A ativista criticou a falta de estrutura para acolher vítimas de violência e a revitimização sofrida por mulheres ao buscarem ajuda nas instituições, situações que culminam na inviabilização desses crimes nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Roraima, Rondônia, Pará e Tocantins.
“Que democracia é essa onde a delegacia de proteção à mulher funciona apenas de 8h às 17h, se o horário em que as mulheres mais precisam de atendimento é à noite? Que democracia é essa em que a mulher chega à delegacia e o agente que deveria acolher a denúncia a julga e manda voltar para casa?”, questionou a ativista.
NR-1 e os desafios para ambientes de trabalho mais saudáveis

Na tarde do dia 13 de março, o início dos debates foi dedicado ao tema “A importância da NR-1 no combate ao assédio, construção de ambientes saudáveis e trabalho digno”. Durante a discussão, os palestrantes abordaram as mudanças recentes na NR-1, norma que estabelece diretrizes gerais para a segurança e saúde no trabalho e que passou por atualizações entre 2024 e 2025. Com as novas regras, as empresas passam a ser obrigadas a gerenciar também os chamados riscos psicossociais, como assédio moral, sobrecarga de trabalho e adoecimento mental, incluindo esses fatores no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Participaram da mesa o técnico do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e Ambiente de Trabalho (DIESAT), Eduardo Bonfim, e o diretor nacional de Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente do sindicato, Pedro Melo.
Durante o debate, também foi destacado que o SINPAF foi convidado a integrar o DIESAT, ampliando a articulação da entidade na defesa da saúde e das condições de trabalho da categoria. O sindicato passa a contar com dois representantes na instituição: o diretor regional Pedro Melo e o vice-diretor regional Sérgio Cobel. A participação fortalece a atuação do sindicato na formulação de estudos e estratégias voltadas à promoção de ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e livres de assédio.
Pedro Melo explicou que, diante da dimensão nacional de instituições de pesquisa como a Embrapa, o sindicato buscou apoio técnico do DIESAT para aprofundar o debate sobre saúde dos trabalhadores. De acordo com Melo, o primeiro passo foi a realização de uma pesquisa para identificar os principais problemas de saúde enfrentados pela categoria, cujos resultados passaram a ser discutidos nas plenárias do sindicato em todo o país.
Com a ampliação da NR-1, o especialista acredita que as trabalhadoras e os trabalhadores estarão prontos para poder discutir com seu setor pessoal e com os psicólogos da empresa, sobre como fazer o tratamento do clima organizacional do ambiente de trabalho, o tratamento das pessoas e o combate ao assédio sexual físico ou verbal.
“É preciso ter instrumentação em cima da questão dos problemas dos direitos sociais, já que tem uma epidemia de transtornos mentais. Lá no ano de 2016, durante a campanha contra o suicídio, já era um absurdo naquela época, quando tínhamos um suicídio a cada 4 minutos. No Amazonas houve 7.500 afastamentos no trabalho de pessoas por transtornos mentais. E tudo isso é subnotificado, porque a grande maioria, quando se afasta, acha que é um problema que ele trouxe de casa, que não é do ambiente de trabalho. A NR-1 faz essa notificação e vai ajudar muito”, disse.
Eduardo Bonfim demonstrou em sua fala que a saúde do trabalhador e da trabalhadora vai além da saúde ocupacional tradicional, englobando prevenção, promoção da saúde física e mental, riscos psicossociais, desigualdade de gênero e racial, condições de vida e trabalho e participação ativa dos trabalhadores.
“Quando trazemos toda essa centralidade, vemos que as pessoas vivem, adoecem ou muitas morrem de forma compartilhada, dependendo do tempo, do lugar e das condições de acesso em cada região do país. Por isso, em atividades como as promovidas pelo sindicato, a luta se assemelha a uma série de riscos ao longo da história, com narrativas que muitas vezes são apenas transmitidas. Mas, ao valorizarmos o protagonismo de cada base e de cada trabalhador dessa categoria, conseguimos materializar a verdadeira riqueza dessa experiência”, destacou.
Pesquisa pública como estratégia diante da emergência climática
A mesa “Soberania nacional e emergência climática: O papel da pesquisa e do desenvolvimento regional público” encerrou o primeiro dia de atividades e reuniu especialistas e representantes do sindicato para discutir a importância de aproximar o debate científico da atuação sindical.
Durante a mesa, as propostas e falas apresentadas buscaram refletir sobre como trabalhadoras e trabalhadores da pesquisa e do desenvolvimento agropecuário também precisam se apropriar das discussões sobre ciência, clima e território para fortalecer a defesa das instituições públicas e da soberania nacional. Participaram do debate o professor Eron Bezerra, professor do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (CCA/UFAM), a professora Marilene Corrêa, do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia da UFAM (PGSCA/UFAM), e a diretora nacional de Ciência e Tecnologia do SINPAF, Michelliny Bentes.
Durante o debate, os participantes destacaram que a produção científica e a pesquisa pública são fundamentais para enfrentar os desafios da emergência climática, promover o desenvolvimento regional e garantir políticas que atendam às necessidades da população, especialmente na Amazônia.
O professor Eron Bezerra explicou que a emergência climática está diretamente ligada à produção agrícola, à ciência e ao desenvolvimento tecnológico. Segundo ele, compreender as mudanças climáticas passa, necessariamente, por discutir como a sociedade utiliza os recursos naturais e quais modelos de desenvolvimento orientam a produção.
“A questão climática tem tudo a ver com agricultura, ciência e tecnologia. Não existe nada nesse debate que esteja separado desses temas. Precisamos entender de que maneira vamos utilizar os recursos naturais e quais caminhos queremos seguir”, declarou.
Na avaliação da professora Marilene Corrêa, falar da ciência e tecnologia para os sindicalistas é muito importante porque oferece um quadro estratégico onde as corporações sindicais, sejam elas de trabalhadores, sejam elas de patrões, podem vislumbrar qual é o seu projeto futuro.
“No caso dos sindicalistas, é sobre o projeto de melhoria da condição de vida e trabalho dos trabalhadores. Mas também é preciso pensar que o setor do trabalho pode ser um indicador fundamental da sustentabilidade brasileira. Então tudo isso converge para uma agenda só. Uma agenda que precisa ser socializada, amplamente debatida e incluída nas lutas sindicais”, explicou.
A pesquisadora Michelliny Bentes enfatizou a importância de incluir o debate sobre ciência e emergência climática na agenda sindical. Segundo ela, embora as pautas tradicionais do movimento sindical estejam ligadas a salários, direitos e condições de trabalho, discutir ciência é fundamental para trabalhadoras e trabalhadores da pesquisa agropecuária, especialmente diante dos desafios climáticos atuais.
“Colocar a ciência no centro do debate sindical é extremamente importante. Nós somos trabalhadores da pesquisa pública e precisamos estar informados sobre as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e os impactos que já fazem parte do nosso dia a dia”, afirmou.
Ainda durante a mesa, a diretoria do SINPAF anunciou o lançamento de uma pesquisa nacional voltada às pesquisadoras e aos pesquisadores da Embrapa. A iniciativa pretende realizar um diagnóstico sobre as condições de trabalho dentro da instituição, abordando temas como assédio, excesso de burocracia nos sistemas de gestão, dificuldades no acesso a recursos para pesquisa e os impactos desses fatores no desenvolvimento científico. A pesquisa foi idealizada pela Diretoria de Ciência e Tecnologia do sindicato, sob coordenação de Michelliny Bentes, e contou com a participação de um grupo de trabalho ampliado formado por dirigentes e colaboradores. A proposta é construir um retrato fiel da realidade enfrentada por pesquisadoras e pesquisadores da empresa.
Desafios, situação atual, encaminhamentos e perspectivas das seções, Ceres e Casembrapa

No sábado de manhã (14), a plenária iniciou as atividades com a mesa “Os desafios enfrentados pelas seções e a contribuição da região para o Plano de Luta Nacional”, reunindo delegadas e delegados das seções sindicais da região Norte para debater as principais demandas da categoria e apresentar propostas que irão compor as diretrizes do sindicato em nível nacional.
Participaram do debate o presidente do SINPAF, Jean Kleber de Sousa Silva, o secretário-geral Antônio Guedes, além dos diretores regionais Norte, Michele Fernandes Pereira e Valterlei José de Moura. A mesa abriu espaço para que representantes das diferentes seções apresentassem os desafios enfrentados em seus estados e contribuíssem com propostas para fortalecer o Plano de Luta Nacional da categoria.
Mauricília Pereira, delegada da seção sindical Acre, relatou que a participação nas assembleias no estado está muito baixa, com presença de poucas pessoas, e enfatiza a necessidade de ações para reverter esse quadro, seja em âmbito nacional ou local. Ela destaca a importância de engajar a próxima geração nas eleições sindicais, reconhecendo que a mobilização piorou após a pandemia e durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“A gente tem que fazer alguma ação para tentar reverter minimamente esse quadro. Vamos sair do sindicato daqui uns anos, e os mais jovens vão segurar a peteca nessa próxima geração. Fico pensando que o ideal é fazer mais eventos, parcerias com outras instituições”, refletiu.
Já na Seção Sindical do Pará, a delegada e presidente da Seção, Ilmarina Menezes, também relatou que o sindicato enfrenta dificuldades históricas de mobilização e engajamento dos filiados no estado, agravadas pelos quatro anos do governo Bolsonaro, quando muitas seções foram despejadas das áreas da Embrapa e o desconto sindical foi suspenso, dificultando a comunicação direta com as trabalhadoras e os trabalhadores.
“Isso mostrou que poderíamos ser desmantelados. Com a volta das seções para dentro da Embrapa, houve uma readequação das atividades, mas a baixa presença de filiadas e filiados em assembleias continua sendo uma das maiores dificuldades, especialmente na entrada de novos empregados”, alertou a sindicalista.
No Amazonas, a representante da Seção Sindical, Simone Alves, ressaltou que o movimento sindical é uma luta constante, exigindo dedicação e enfrentamento de desafios. Simone mencionou dificuldades administrativas, como assessoria jurídica limitada e problemas financeiros, e reforçou a necessidade de união da base, engajamento de novos filiados e iniciativas que fortaleçam o sindicato local, sempre alinhado às pautas nacionais e à coletividade.
“Isso reflete na saúde, na segurança e na qualidade de vida. Não adianta você somente ter um salário muito alto, se você não tem um ambiente que te abrace e que te acolha”, disse Simone.
Na mesa “Situação atual e perspectivas da Ceres e Casembrapa”, o Diretor Nacional de Assuntos Jurídicos e Previdenciários, Adilson F. Mota, abordou a preocupação com a aposentadoria e o atendimento à saúde das trabalhadoras e trabalhadores, especialmente diante do chamado “saldamento” do Plano BD da Ceres/Embrapa, iniciado no final de 2023. O saldamento inicial, no contexto de previdência complementar, é o processo de interrupção da acumulação de benefícios em um determinado plano (neste caso do Benefício Definido – BD), fixando o valor que o participante acumulou até aquela data.
“Soubemos que o ‘saldamento’, iniciado no final de 2023, trouxe termos como ‘iminentes’ e ‘não iminentes’, desconhecidos por muitos. Acompanhamos de perto, identificamos erros nos cálculos e riscos de prejuízo, acionamos a presidência da Embrapa e a Justiça, resultando na suspensão definitiva. Também monitoramos os planos BD e investimentos deficitários, reforçando a importância da participação coletiva e da fiscalização contínua para proteger os direitos dos trabalhadores”, disse Adilson.
Na mesa sobre Acordo Coletivo de Trabalho 2026/2027 e eleição da Comissão Nacional de Negociação (CNN), foram eleitos Jasiel Nunes, da Seção Sindical Amazonas, como titular, e Ilmarina Menezes, da Seção Sindical Pará, como suplente. Entre os encaminhamentos, destacaram-se a busca por apoio parlamentar nos estados e a intensificação da mobilização das bases.
“Precisamos mobilizar nossas bases. Historicamente, a mobilização começa na construção da pauta zero e segue até o fechamento do acordo. Nesse intervalo, não podemos deixar o movimento esfriar. É fundamental promover o debate na base, realizar assembleias e manter as trabalhadoras e os trabalhadores permanentemente informados. Não existe vida fácil para a classe trabalhadora. Mas, se estivermos mobilizados e conseguirmos que a base compreenda a importância de estar unida nesse processo, certamente avançaremos”, afirmou o presidente nacional do SINPAF, Jean Kleber.
O espaço da mulher na sociedade

A tarde do último dia de plenária foi marcada pela mesa “Mulheres, democracia e vida: construindo o futuro”, que iniciou com a apresentação do grupo cultural e feminista Baque Mulher Manaus. A mesa reuniu Marília Freire, presidenta do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Amazonas (Cedim); Luciana Santos, membra da Comissão de Igualdade Racial da OAB/AM; e Ivânia Vieira, professora do curso de Comunicação Social da UFAM.
As três especialistas discutiram temas relacionados à promoção da igualdade de gênero, enfrentamento da violência contra a mulher e a importância da participação feminina nos espaços de decisão política e social. Abordaram também a interseccionalidade, destacando como raça, classe e território influenciam a vida das mulheres. Reforçaram, ainda, a necessidade de políticas públicas efetivas para garantir direitos e oportunidades na construção de uma sociedade mais justa e democrática. Elas também relembraram o feminicídio político de Marielle Franco, em 2018, em homenagem a sua memória e como um marco do combate à violência contra a mulher no Brasil.
“A gente poderia pensar que essa é uma realidade totalmente distante da nossa realidade amazônica, mas não é. E eu acho que eu também sou um pouco semente do que aconteceu com a Marielle e da própria luta dela enquanto parlamentar, enquanto defensora de direitos humanos. É muito simbólico para quem está na luta, para nós mulheres de direitos humanos”, disse Marília Freire.
Ivânia Vieira explorou em sua fala a questão da representatividade e da igualdade, refletindo sobre como esses conceitos se manifestam na Amazônia. Ressaltou ainda a importância da política de cuidado, questionando quem a implementa e de que forma, e analisou o espaço das mulheres na democracia, relacionando-o ao calendário eleitoral no Amazonas e aos desafios de realizar campanhas em comunidades afetadas por condições ambientais adversas, como rios secos.
Ela criticou a aplicação uniforme de regras nacionais, defendendo a criação de parâmetros regionais específicos para o Norte e a Amazônia, e enfatizou a necessidade de alianças políticas estratégicas para enfrentar resistências à democracia.
“É preciso superar esse nível de democracia que se tem. Uma democracia exige mais igualdade, mais equidade, pensar nas alianças para enfrentar aqueles e aquelas que são contra a democracia”, afirmou.
Luciana Santos contextualizou sua análise a partir de experiências pessoais e profissionais. A jornalista e advogada relatou sua infância marcada por vulnerabilidade familiar, explicou a importância das comunidades tradicionais e sua visão coletiva, e destacou sua atuação em direitos humanos. Ela também apontou problemas estruturais, como a revitimização de mulheres no judiciário e a suspensão do ensino de gênero e história indígena/afro-brasileira.
“Dentro do movimento negro a gente tem esse lema de que quando houver racismo não haverá democracia. É necessário combater tanto o machismo como o racismo no país, considerando a interseccionalidade, porque a vulnerabilidade de uma mulher negra ou lésbica é diferente da vulnerabilidade de um homem branco. Precisamos olhar para essas múltiplas individualidades e garantir que políticas públicas alcancem todas as mulheres, inclusive nas comunidades tradicionais da Amazônia. É fundamental trabalhar também a questão das masculinidades, da conscientização, e garantir que a legislação, como a Lei Maria da Penha, seja aplicada de forma efetiva, para proteger as mulheres, acolhê-las e impedir a reprodução da violência”, enfatizou Luciana Santos.
Reforma do Estatuto

O diretor Jurídico do SINPAF, Adilson F. Mota, apresentou a proposta de reforma do estatuto do sindicato, destacando que a comissão responsável realizou nove reuniões extensas para revisar todo o documento. Entre as diversas mudanças estão a inclusão expressa de “trabalhadoras” no nome e no artigo 1º, ajustes no artigo 7º para definir quem são os trabalhadores e trabalhadoras, e a modernização do artigo 16 para permitir eleições presenciais, eletrônicas ou híbridas com regras claras sobre quem decide o formato. Foi definido também que suplentes têm direito a voto nas reuniões da diretoria (artigo 35) e que o vice-presidente possui voz e voto, com regras de desempate estabelecidas (artigo 37).
Outras alterações incluem a valorização de diversidade e meio ambiente nas diretorias: a diretoria de políticas sociais passa a incluir diversidade, com ações de combate ao racismo e promoção da inclusão, enquanto a diretoria de ciência e tecnologia assume temas de meio ambiente, mudanças climáticas e zoonoses emergentes. Para os diretores regionais, foram estabelecidas competências claras de encaminhar pautas, convocar assembleias e garantir a participação de delegados nas plenárias regionais e no congresso (artigo 47).
Por fim, a reforma prevê regras para a Auditoria Fiscal Nacional, definindo procedimentos em caso de vacância de membros efetivos e suplentes e a eleição de auditores provisórios (artigo 56). O objetivo geral das mudanças é modernizar o estatuto, ampliar a participação das trabalhadoras e dos trabalhadores, valorizar diversidade e inclusão e dar maior clareza e segurança jurídica aos processos internos do sindicato.
Manaus é reeleita para sediar Plenária Norte em 2027
O encerramento da 30ª Plenária se deu com a votação de moções e encaminhamentos, entre os quais ficou definido que o SINPAF indicará que a Casembrapa forneça aos beneficiários os valores detalhados dos procedimentos no início da prestação de serviços, assim como reivindicará uma cadeira para que um representante do sindicato integre a futura Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão, a ser constituída pela diretoria executiva da Embrapa.
Por fim, realizou-se a eleição da sede da Plenária Norte para o ano de 2027. Com candidaturas e retiradas de nomes, Manaus foi escolhida, por unanimidade, para recepcionar os delegados no ano que vem, pelo segundo ano consecutivo.
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