Brasil registrou mais de 87 mil estupros e 1.492 feminicídios em 2024: Até quando?
Por: Gisliene Hesse
Em 2024, foram registrados 87.545 estupros no país, o maior número da história, e 1.492 feminicídios, a maior marca desde que o crime passou a ser tipificado em 2015. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
Entre as vítimas de estupro, 76,8% são crianças e adolescentes de até 14 anos, configurando estupro de vulnerável. O crime, que expressa a mais brutal forma de dominação sobre os corpos, atinge meninas em sua maioria, mas também meninos — e está fortemente ligado a ambientes domésticos e familiares: quase 68% dos casos aconteceram dentro de casa.
Nos feminicídios, os dados também são alarmantes: 80% das mulheres assassinadas foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, 64% dentro da própria residência, e 64% eram mulheres negras.
Para o SINPAF, os números não podem ser tratados como estatísticas frias. Eles revelam a continuidade de uma cultura de violência estrutural que atinge em cheio mulheres, meninas e corpos vulneráveis — e resiste mesmo diante de políticas públicas e medidas protetivas.
“Estamos falando de vidas ceifadas todos os dias por conta do machismo, do patriarcado e da impunidade. Essa é uma guerra silenciosa contra as mulheres brasileiras, que se agrava com a omissão do Estado, com o machismo estrutural e com a naturalização da violência”, afirma Sílvia Belloni, Diretora da Mulher do SINPAF.
Violência contra as mulheres
O Anuário mostra uma diminuição na taxa global de mortes violentas intencionais no Brasil, mas as estatísticas de feminicídio bateram, novamente, o recorde do estudo iniciado em 2015, com aumento de 0,7% nos casos em 2024, em comparação com 2023. No total, 1.492 mulheres foram assassinadas por sua condição de gênero, o que mantém consistente o crescimento observado nos últimos anos.
O perfil das ocorrências mostra que 63,6% das vítimas eram negras, 70,5% tinham entre 18 e 44 anos, oito em cada dez foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, e 64,3% dos crimes ocorreram dentro de casa.
Segundo o levantamento, 97% das vítimas foram assassinadas por homens. Dentre os 18 estados que registram essa informação, cerca de 9% dos feminicídios foram seguidos de suicídio do autor. No caso das tentativas de feminicídio, as ocorrências aumentaram em 19%, com 3.870 casos. Outras condutas criminosas contra as mulheres também cresceram em 2024, como stalking (18,2%) e violência psicológica (6,3%).
Violência contra crianças e adolescentes
Apesar da redução geral na letalidade, a violência contra crianças e adolescentes também continuou crescendo. As taxas de mortes violentas intencionais aumentaram 3,7% no grupo de 0 a 17 anos, com 2.356 vítimas no total.
Também houve crescimento nos seguintes crimes:
- 14,1% nos crimes relacionados à produção de material de abuso sexual infantil;
- 9,4% nas ocorrências de abandono de incapaz;
- 8,1% na prática de maus-tratos;
- 7,8% nas taxas de agressão decorrente de violência doméstica.
Em 2024, o Brasil registrou o maior número de estupros e estupros de vulnerável da série histórica, com 87.545 ocorrências. A cada seis minutos, uma mulher foi estuprada no país.
Do total de ocorrências:
- 76,8% correspondem a estupro de vulnerável;
- 55,6% foram contra mulheres negras;
- 65% ocorreram dentro de casa;
- 45,5% dos agressores eram familiares das vítimas;
- 20,3% eram parceiros ou ex-parceiros íntimos.
Estados e cidades mais violentos
As 10 cidades mais violentas do país se concentram no Nordeste. Todas enfrentam conflitos de facções pelo controle da criminalidade local e o tráfico de drogas.
Os estados com maiores taxas de violência por 100 mil habitantes foram:
- Amapá (45,1)
- Bahia (40,6)
- Ceará (37,5)
Já os estados com menores taxas foram:
- São Paulo (8,2)
- Santa Catarina (8,5)
- Distrito Federal (8,9)
Em relação aos estupros, Roraima apresentou a maior taxa total, com 137 casos por 100 mil habitantes, seguido por:
- Acre (112,5)
- Rondônia (99,5)
No recorte de estupro de vulnerável contra meninas, Roraima também lidera, com 191,8 casos por 100 mil mulheres. O Mato Grosso, por outro lado, teve a menor taxa: 6,4.
Em números absolutos, São Paulo, Paraná e Pará concentraram 35% de todos os registros nacionais desse tipo de crime.
Compromisso do SINPAF
Diante desse cenário, o SINPAF reforça seu compromisso com a defesa da vida das mulheres e com a construção de ambientes de trabalho e de convivência livres de violência, assédio e discriminação.
A entidade também defende ações de prevenção desde a infância, educação para a igualdade de gênero, proteção efetiva das vítimas e punição rigorosa aos agressores.
“Violência contra a mulher é problema de toda a sociedade. Não vamos silenciar. O SINPAF está junto na luta por justiça, dignidade e proteção”, conclui Belloni.

