Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário

Consad da Codevasf: como os trabalhadores estão representados

23 de janeiro de 2026
Por: Camila Bordinha

A Codevasf possui um papel estratégico no desenvolvimento regional, na gestão de recursos hídricos e na execução de políticas públicas em grande parte do território nacional. As grandes decisões que orientam essa atuação passam pelo Conselho de Administração (Consad), órgão máximo de deliberação estratégica da empresa.

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Prevista na Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016), a presença de um representante das trabalhadoras e trabalhadores no Consad é uma conquista importante para a democracia interna, pois garante que a visão de quem vive o dia a dia da empresa esteja presente nos debates e decisões que impactam diretamente a vida funcional, as condições de trabalho e o futuro institucional da Codevasf.

Atualmente, essa responsabilidade é exercida por Carlos Hermínio, empregado da Codevasf há mais de quatro décadas e que está em seu terceiro mandato como representante das trabalhadoras e dos trabalhadores no Conselho de Administração.

Para aproximar essa atuação da categoria, o SINPAF conversou com o conselheiro em uma entrevista no formato ping-pong. Ao longo da conversa, Carlos Hermínio fala sobre sua trajetória na empresa, o papel do Consad, os limites e desafios da representação dos empregados, as prioridades para o mandato e sua visão para o futuro da Codevasf. Leia abaixo:

SINPAF (S) – Conte um pouco da sua trajetória na Codevasf e como ela o aproximou do movimento sindical.

Carlos Hermínio (CH) – Ingressei na Codevasf como engenheiro civil, em 6 de fevereiro de 1980, atuando nas obras de Penedo, no Baixo São Francisco, onde participei da implantação do Perímetro de Irrigação do Betume. Essa experiência foi fundamental para minha formação profissional. Ao longo dos anos, fui assumindo diferentes funções: chefe de operação e manutenção do projeto, chefe do grupo de engenharia e chefe de Distrito de Irrigação.

Tive a oportunidade de realizar um mestrado na França, entre 1986 e 1989, e, em 1990, assumi interinamente a Superintendência da Codevasf. Essa interinidade, que inicialmente seria temporária, acabou se estendendo por quase dez anos. Nesse período, tive uma convivência muito próxima com o sindicato, que esteve ao nosso lado não apenas na defesa dos servidores, mas também dos trabalhadores rurais.

Sempre respeitei e defendi o sindicato como a maior expressão de representatividade dos empregados, um canal legítimo de diálogo. Procuro atuar no Consad sem sobrepor a atuação sindical, participando das plenárias sempre que sou convidado e levando tanto o conhecimento técnico quanto a compreensão do papel do sindicato e da empresa. Sou muito grato às experiências no SINDSEP e, posteriormente, no SINPAF.

Ao longo dos meus três mandatos no Consad, sempre atuei com transparência e respeito aos representantes da sede e das Superintendências Regionais. A transparência, para mim, é essencial no serviço público. Também atuei como coordenador do Programa Água para Todos, no âmbito do Brasil Sem Miséria, e atualmente trabalho em Sergipe, buscando viabilizar o Canal do Xingó, um projeto estruturante para levar água ao Semiárido sergipano e baiano.

Tenho 45 anos de Codevasf, fui recentemente reeleito para o Consad e sigo motivado, consciente da grande responsabilidade que é representar os empregados em um conselho que ainda é pouco conhecido dentro da empresa.

S – O que representa ocupar uma cadeira no Consad?

CH – Representa levar para o Conselho os interesses dos empregados, sempre articulados com os interesses maiores da empresa. A inclusão de um representante dos trabalhadores no Consad, prevista na Lei das Estatais, foi um grande avanço.

No entanto, ainda há limites importantes. Um único representante em um conselho com sete membros tem dificuldades reais de influenciar decisões. Além disso, não há suplente, o que deixa os empregados sem representação em caso de impedimento. Outro ponto crítico é a aplicação do conceito de conflito de interesses, que muitas vezes impede a participação do conselheiro representante dos empregados em discussões que dizem respeito justamente ao coletivo.

Defendo que os conselheiros, especialmente os representantes dos trabalhadores, tenham estrutura de apoio e assessoramento. Discutimos temas centrais da empresa, e a participação qualificada dos empregados é fundamental para que as decisões sejam bem fundamentadas.

S – Quais são hoje os principais desafios da Codevasf?

CH – Um dos principais desafios é redefinir com mais clareza a missão da empresa. Até os anos 2000, a Codevasf tinha uma atuação muito concentrada nos perímetros de irrigação, com mais de 40 projetos implantados. Com o tempo, a dependência das emendas parlamentares passou a desconectar parte das ações do planejamento institucional.

É fundamental dialogar com os parlamentares, com apoio do sindicato, para alinhar as emendas às prioridades da empresa e às necessidades da sociedade. As emendas são importantes para recompor o orçamento, historicamente reduzido, mas precisam respeitar o planejamento estratégico.

Outro grande desafio é a estruturação da empresa. Hoje temos 16 Superintendências Regionais, o dobro do que existia no início dos anos 2000, mas sem a infraestrutura e o pessoal necessários. É urgente realizar concurso público, revisar o Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) e o Plano de Funções Gratificadas (PFG), ambos defasados há mais de 15 anos. A terceirização excessiva tem ocupado espaços que deveriam ser da equipe técnica própria.

S – Como as decisões do Consad afetam as trabalhadoras e os trabalhadores?

CH – As grandes diretrizes da empresa passam pelo Consad: Plano de Desenvolvimento Institucional, planos de saúde, previdência complementar, benefícios, grandes projetos e decisões estratégicas. Por isso, é fundamental que os representantes dos empregados tenham acesso pleno a essas discussões.

Defendo que o conceito de conflito de interesses seja revisto. Questões individuais, por ética, devem gerar impedimento. Mas temas coletivos, como PCCS, PFG, condições de trabalho e bem-estar dos empregados, precisam contar com a participação do representante dos trabalhadores. Além disso, é necessário ampliar o número de representantes e avançar na diversidade, como já ocorre com a exigência de participação mínima de mulheres nos conselhos das estatais, que foi uma conquista da Rita Serrano.

S – Quais compromissos o senhor assume para este mandato?

CH – Busco um Consad mais descentralizado, participativo e atuante. A realização da primeira reunião descentralizada, em Fortaleza (CE), foi um marco importante. Pretendemos avançar na criação do Comitê de Riscos, no Manual do Conselheiro e em uma comunicação mais efetiva, por meio de boletins informativos que apresentem o dia a dia do Conselho aos empregados.

Meu compromisso é deixar um legado mais estruturado, com um conselho que não se limite a reuniões formais, mas que tenha acompanhamento das decisões, estrutura de apoio e participação ativa na definição das diretrizes estratégicas da empresa.

S – O que o senhor espera da Codevasf para os próximos anos?

CH – Espero uma Codevasf mais aberta, transparente e participativa, com maior envolvimento dos empregados no planejamento estratégico. A valorização do diálogo com o SINPAF e o fortalecimento da atuação sindical são fundamentais para uma empresa mais justa e democrática.

Apesar das dificuldades e da exposição negativa recente na mídia, sou otimista. A Codevasf atua hoje em cerca de 36% do território nacional, em 22 bacias hidrográficas. Temos muito a fazer e muito a entregar à sociedade.

S – Para finalizar, deixe um recado às trabalhadoras e aos trabalhadores.

CH – Peço que acompanhem nossos boletins informativos, nossos canais de comunicação e reflitam sobre a importância da sindicalização. Sindicato forte fortalece a empresa. Continuarei honrando a confiança que os colegas depositaram em mim, defendendo os interesses dos empregados e da Codevasf, com compromisso, transparência e democracia.

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