Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário

SINPAF coordena debate sobre meio ambiente, trabalho e transição energética na AgriZone

13 de novembro de 2025
Por: Gisliene Hesse

Na manhã desta terça-feira (12), o SINPAF coordenou uma mesa de debate na AgriZone, a Casa da Agricultura Sustentável na COP30, em Belém, PA. Com mediação do presidente do Sindicato, Jean Kleber, o debate contou com a presença de quatro mulheres líderes de diferentes áreas que compartilharam o mesmo propósito: defender o meio ambiente e as(os) trabalhadoras(es).

A mesa abordou temas centrais para o futuro do planeta e do trabalho, como a transição energética justa e soberana, a valorização das populações tradicionais, a disputa de narrativas sobre o agronegócio e a sustentabilidade, e as condições reais dos chamados empregos verdes. As falas ressaltaram que não há separação entre meio ambiente e trabalho — e que o protagonismo dos trabalhadores e trabalhadoras é essencial na construção de políticas climáticas que respeitem a vida, a diversidade e os territórios.

Na abertura do debate, o presidente do SINPAF, Jean Kleber, destacou a importância da composição da mesa e do protagonismo feminino no diálogo. Segundo ele, “ter quatro mulheres maravilhosas que atuam em áreas distintas, mas com um foco comum — a defesa do meio ambiente e dos trabalhadores — é algo muito importante e necessário.”

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Narrativas e protagonismo popular

A empreendedora Kamila Camilo, fundadora do Instituto Oyá e da Creators Academy, destacou a disputa de narrativas sobre o meio ambiente no Brasil. Para ela, é fundamental valorizar quem realmente conserva a natureza: “São os produtores rurais que têm um estilo de vida que mais preserva o meio ambiente. Mas como contar as histórias dessas pessoas, se não temos o mesmo poder de comunicação das grandes empresas?”

Kamila lembrou que a abordagem da mídia não representa quem põe comida sem veneno na mesa. “Estamos retomando as nossas narrativas, recomeçando a contar nossas histórias em primeira pessoa. Enquanto isso, a indústria dos combustíveis fósseis cria produtos sintéticos e vende como se fossem a melhor solução do mundo. O setor esportivo, por exemplo, depende do petróleo, pois as roupas são feitas de tecidos sintéticos — e quem perde com isso são os produtores e territórios.”

Ela também alertou sobre a urgência da crise climática: “Não é mais sobre se um evento climático vai acontecer, mas quando. Estamos em um momento de desfazer o pensamento de que o Brasil é ‘abençoado por Deus e bonito por natureza’. As catástrofes ambientais não são culpa da natureza — ela está tentando reagir.”

Transição energética justa, soberana e popular

A pesquisadora Nalva Faleiro, petroleira e diretora de Saúde, Segurança, Tecnologia e Meio Ambiente do Sindipetro-RS e da FUP, trouxe dados e reflexões sobre a transição energética e a responsabilidade do Brasil nesse processo. “A mudança climática e a transição energética não são temas do futuro — são desafios do presente”, afirmou.

Ela destacou que 75% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa vêm do desmatamento e do agronegócio, enquanto o setor energético responde por apenas 18% e o de petróleo e gás por 2,4%. “O debate não pode se limitar a explorar ou não o petróleo. Precisamos de um plano brasileiro de transição energética baseado na nossa realidade, que reduza desigualdades e garanta soberania energética.”

Segundo Nalva, a transição deve ser justa, soberana e popular: “Justa, porque deve considerar os trabalhadores; soberana, porque precisamos garantir nossa independência energética; e popular, porque deve incluir as populações atingidas.” Ela defendeu que a exploração de novas fronteiras energéticas ocorra sob o regime de partilha, garantindo que os lucros retornem ao país e sejam usados para reduzir a pobreza energética e a desigualdade.

A voz dos Territórios

Em um relato emocionado, Luane Savelarinho, agroextrativista e liderança do Marajó, lembrou que as decisões sobre o futuro energético precisam ser construídas de baixo para cima. “Se falamos de transição justa, eu digo que é desigual — desigual para nós”, afirmou.

Ela descreveu as dificuldades enfrentadas pelos povos tradicionais: falta de energia elétrica, de água potável, de apoio e certificação para seus produtos. “Vivemos com lamparina, sem recursos, enquanto mantemos a floresta viva. A resposta para o clima somos nós.”

Luane reforçou a importância de ouvir os povos da floresta: “O Marajó não é só problemas. É rico, tem biodiversidade, tem potencial. Mas não temos fomento, nem políticas públicas que cheguem até nós. Nós resistimos e preservamos — e merecemos ser ouvidos.”

Empregos verdes e dignidade

Encerrando o debate, Renata Belzuces, economista e técnica do Dieese, trouxe o olhar do Dieese sobre o mercado de “empregos verdes” no Brasil. “Existem cerca de 17 milhões de trabalhadores em ocupações que podem ser consideradas verdes — a maioria na agricultura, produção florestal, pesca e aquicultura. Mas é preciso olhar para as condições em que esses trabalhos são realizados.”

Ela questionou a romantização de atividades precárias. “Quem coleta recicláveis na rua contribui para o meio ambiente, mas trabalha sem banheiro, sem protetor solar, sob risco de atropelamento. Isso não é emprego digno.”

Renata lembrou que a luta ambiental e a luta dos trabalhadores sempre estiveram conectadas. “O movimento sindical não está chegando agora à pauta ambiental. Chico Mendes nos ensinou que precisamos ambientalizar as lutas sindicais — não carregar um novo fardo, mas reconhecer que a defesa do meio ambiente já faz parte da luta por trabalho, saúde e vida digna.”

O papel do SINPAF

Mais do que participar de um debate na Agrizone, que faz parte da agenda da COP30, o sindicato marcou posição em um espaço conquistado com luta. “Esse espaço foi cavado com as mãos do SINPAF”, afirmou Elanderson Soares, diretor adjunto administrativo-financeiro do Sinpaf.

Jean Kleber destacou a importância do diálogo e da união entre os movimentos sociais e sindicais na luta por mudanças estruturais. Ele parafraseou Chico Mendes: “ecologia sem luta de classes é jardinagem”. E destacou: “Então se a gente não tiver na cabeça que estivemos, estamos e estaremos em uma luta de classe, nós não vamos conseguir dar passo para lugar nenhum. Da forma que nós acreditamos que tem que ser”.

Já Ilmarina Menezes, presidenta da Seção Sindical Pará, reforçou a importância de ampliar o diálogo sobre a exploração de petróleo, ressaltando que o essencial é “como será feita essa exploração”.

Na COP30 e além dela, o SINPAF reafirma seu compromisso de defesa de uma transição justa que priorize a classe trabalhadora.

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