Consciência Negra: uma data para lembrar e agir
Por: Camila Bordinha
O Dia da Consciência Negra, celebrado neste 20 de novembro no Brasil, nos convoca a olhar para a história, para o presente e para o futuro da população negra, principalmente em nosso país. Embora a escravidão tenha sido oficialmente abolida em 1888, sua herança atravessa os séculos e permanece viva nas estruturas sociais, políticas, econômicas e institucionais.
Para o presidente do SINPAF, Jean Kleber de Sousa Silva, reconhecer que vivemos em uma sociedade marcada pelo racismo institucional é uma condição para que se inicie a transformação.
“O Brasil é sim um país racista — no sentido amplo de que raça/cor continuam a definir oportunidades, trajetórias e dignidade humana, inclusive dentro das empresas públicas que compõem a base do SINPAF”, declara Jean Kleber.
Racismo que não se vê
O racismo institucional refere-se àquelas práticas, normas, rotinas, comportamentos organizados ou institucionalizados que, mesmo sem intenção explícita, produzem desigualdades raciais sistemáticas.
No Brasil, os indicadores falam por si:
- Pesquisa do Observatório de Saúde Pública, apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial e divulgada neste ano, indicou que quase 85% da população preta afirma ter sofrido discriminação racial em diferentes contextos.
- Em 2024, o Disque 100 registrou mais de 5,2 mil violações de racismo e injúria racial, em mecanismos de denúncia que envolvem ambiente de trabalho, espaços públicos, transporte, saúde e educação.
- Em 2022, o rendimento-hora da população ocupada branca (R$ 20,0) era 61,4% maior que o da população preta ou parda (R$12,4), conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.
- Embora sejam 28% da população brasileira, as mulheres negras ocupam menos de 3% dos cargos eletivos no Congresso Nacional, segundo dados do TSE (2024).
- De acordo com o IBGE e o Ministério da Saúde, mulheres pardas e pretas têm a menor expectativa de vida e maior taxa de mortalidade materna, sendo que 65% das mortes de gestantes no Brasil ocorrem entre mulheres negras.
Esses números confirmam que o racismo não está apenas em atos explícitos — ele está “dentro” das instituições, na forma como funcionam, decidem, atendem, definem políticas ou fazem acontecer os serviços públicos.
Por que essa desigualdade importa
A luta antirracista não é apenas uma pauta simbólica, mas condição para uma sociedade verdadeiramente democrática, quando observamos que a população negra — em suas múltiplas identidades, intersecções e condições — está historicamente relegada a um papel de menor visibilidade e menor acesso.
De acordo com a diretora de Políticas Sociais e Cidadania do SINPAF, Franciana Volpato, o racismo institucional sustenta um ciclo de exclusão que, sem intervenção consciente, se perpetua.
“A desigualdade racial não é uma teoria distante, é uma dor real que afeta nossa categoria e a sociedade. Ela se manifesta em menor remuneração, maior insegurança no emprego e acesso limitado a serviços vitais como educação de qualidade e saúde. É por um futuro mais justo que o SINPAF age: nosso compromisso inegociável é construir pontes e transformar, juntos, essa estrutura de racismo estrutural,” afirma a diretora do sindicato.
Campanha do SINPAF – No mês da Consciência Negra, quem escolhe nossa bandeira é você
Por isso, neste mês da Consciência Negra, o SINPAF inaugura uma nova fase de sua trajetória sindical: uma fase em que o combate ao racismo e a valorização da pessoa negra passam a ser valores permanentes da gestão. A campanha “No mês da Consciência Negra, quem escolhe nossa bandeira é você” une participação, simbolismo e compromisso coletivo, reafirmando que igualdade é compromisso, não discurso.
A Diretoria Nacional do SINPAF assume o enfrentamento ao racismo como prioridade política e humana, estimulando o diálogo e a consciência na categoria. Segundo o diretor Administrativo e Financeiro do SINPAF, Zeca Magalhães:
“O combate ao racismo é uma construção coletiva. O SINPAF dá mais um passo firme para que o respeito, a diversidade e a valorização da pessoa negra estejam no centro da nossa luta sindical.”
Como pontapé das ações do SINPAF em combate ao racismo e a valorização das populações negras, o sindicato está realizando uma votação entre trabalhadoras e trabalhadores da base para escolher a bandeira que representará a luta antirracista no Sindicato:
- Veja as duas opções de bandeiras elaboradas, ambas inspiradas nas bandeiras pan-africanas — símbolos de resistência, ancestralidade e libertação:


- As cores e seus significados:
- Preto: representa a força e identidade do povo negro;
- Vermelho: o sangue derramado na luta por liberdade e dignidade;
- Verde: a esperança e a conexão com a terra;
- Amarelo: a riqueza cultural e humana que ilumina nossa diversidade.
A votação ocorrerá de 17 a 29 de novembro, por meio de formulário on-line [clique aqui para votar], e quem participar concorrerá ao sorteio do livro “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior — uma das obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea.
O resultado do sorteio será no dia 1º de dezembro, mês em que também celebramos o Dia Internacional dos Direitos Humanos — reafirmando que valorizar as pessoas negras é fortalecer o sindicato e a democracia.
A campanha reforça que a transformação está em cada um, nas nossas escolhas, na nossa mobilização e no nosso cotidiano.
“Com essa campanha, reafirmamos que a construção de uma sociedade mais justa e igualitária começa dentro de cada espaço de trabalho, nas nossas relações e nas nossas práticas coletivas.” — conclui o presidente do SINPAF.
Participe, vote, compartilhe e faça parte dessa história!
Marcha das Mulheres Negras
A programação da campanha do SINPAF também se conecta com outro marco de luta: a Marcha das Mulheres Negras, que acontece no dia 25 de novembro — data em que o mundo também celebra o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.
O SINPAF estará presente com mulheres de diferentes regiões do país, evidenciando que a luta antirracista e a luta das mulheres caminham juntas.
Participe da Marcha:
Toda a categoria está convidada a se juntar a esse ato de mobilização e resistência coletiva. A concentração será às 8h, na sede do SINPAF Nacional, em Brasília, de onde as participantes e os participantes seguirão em caminhada até o Museu da República, ponto de partida da Marcha.
Segundo a diretora da Mulher do SINPAF, Sara Lucas Araújo, a marcha representa um momento simbólico e de união para as trabalhadoras. “É uma data em que unimos duas lutas fundamentais: a resistência das mulheres negras e o enfrentamento à violência de gênero. Ambas se entrelaçam na vivência das trabalhadoras negras, que carregam nas mentes, muitas vezes no corpo, e na história as marcas do racismo e do machismo,” destacou Sara.
Um chamado à ação
Não basta reconhecer que o Brasil é racista — é preciso agir. O racismo institucional se combate com políticas, práticas, consciência, participação, e não apenas com discursos.
Este mês, ao participar da campanha, escolher a bandeira, envolver-se com a votação, com os debates e com a marcha, você torna-se parte ativa da mudança. O SINPAF abre espaço, promove a escuta, reforça a participação. Restará a você: escolher conscientemente, atuar solidariamente e transformar coletivamente.

