Desmonte da Embrapa coloca em risco a segurança alimentar brasileira

Por: Vânia Ferreira | | Notícias gerais

O Brasil é destaque na produção agrícola mundial, ficando hoje atrás apenas dos Estados Unidos e da União Europeia. Por seu grande potencial de expansão, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estima que o país alcance a liderança mundial alimentar em 2020.

A pujança da agropecuária brasileira tem sido um dos grandes alicerces do nosso país, que nas últimas quatro décadas teve um expressivo aumento da produtividade no campo, passando de pouco mais de 46 milhões de toneladas para surpreendentes 225 milhões.

Essa evolução tem como grandes protagonistas a ciência e os trabalhadores rurais, que, de mãos dadas com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estão levando ao campo a aplicação do conhecimento e de novas técnicas que permitiram ao país atingir o patamar de terceiro maior produtor agrícola do mundo.

A excelência do trabalho desenvolvido pelos empregados da Embrapa ao longo dos seus 45 anos de existência tem papel fundamental no acesso da população a uma alimentação digna, além de cumprir papel estratégico na garantia de soberania nacional e segurança alimentar e na composição do Produto Interno Bruto (PIB), contribuindo em cerca de 24% no ano de 2017 para o crescimento do país.

Nesse cenário, a Embrapa, principal organização de inovação para a agricultura tropical no mundo, se destaca com os impactos econômicos produzidos por tecnologias e cultivares desenvolvidas pela empresa e seus parceiros, gerando um lucro social de R$ 34,88 bilhões em 2017: cada R$ 1,00 real investido na empresa retornou à sociedade brasileira o montante de R$ 11,37, na forma de tecnologias, conhecimentos e empregos (Embrapa em Números, 2017).

Não obstante ao sucesso no cumprimento do seu papel social, assim como outras empresas públicas estratégicas e fundamentais para o desenvolvimento do país, a Embrapa vem sofrendo um sorrateiro processo de desmonte arquitetado pelo governo federal e executado por sua atual diretoria, orientados à construção de um Estado mínimo, com entrega das riquezas brasileiras aos interesses privados.

A mais recente dessas ações de desmantelamento da Embrapa segue agenda nesta quinta-feira (2), quando o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, representante político da bancada ruralista e investigado por crimes de corrupção, se reunirá em Brasília com gestores da Embrapa para tentar convencê-los a apoiar uma proposta de reestruturação da empresa elaborada a toque de caixa, sem participação dos trabalhadores, da comunidade científica e da sociedade.

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF), que representa mais de 12 mil trabalhadores de cinco empresas públicas, é absolutamente contra a proposta de mudança estrutural da Embrapa, por abordar somente a sua dimensão organizacional, sem revisar os desafios ambientais, sociais, econômicos, políticos e éticos relevantes para uma renovação institucional.

Quais seriam as verdadeiras razões das mudanças na Embrapa, sobretudo em um ano atípico como 2018, quando temos eleição presidencial, além do fim do mandato do ministro Blairo Maggi e do atual presidente da empresa? A quem interessa essa precipitada mudança estrutural? Certamente, não aos interesses da sociedade brasileira, que tem 70% dos alimentos sobre a sua mesa produzidos pela agricultura familiar, setor que parece estar cada vez mais distante dos planos desse governo e da diretoria da empresa.

O SINPAF entende que mudanças organizacionais são necessárias à sobrevivência de qualquer instituição. Porém, é essencial que a construção de novos modelos organizacionais seja feita de forma democrática, transparente, com a profundidade e o cuidado que o caso requer.

A proposta atual, além de não ter sido construída adequadamente, ignorando estudos e metodologias apropriadas para processos de inovação institucional, pode criar mais burocracia e reduzir a capacidade de entrega de resultados à sociedade.

É imprescindível que todo brasileiro esteja atento ao processo de desmonte que está em curso no país. Assistir e aceitar passivamente à entrega do patrimônio público resultará em danos irreparáveis. Se isso continuar, nossos descendentes perguntarão por que não fizemos nada enquanto ainda havia tempo.

Por Carlos Henrique Garcia, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF).

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