Especialistas debatem cortes orçamentários, ressignificações e sustentabilidade na pesquisa agropecuária brasileira

Por: Vânia Ferreira em Segunda, 16 Novembro 2020 | Categoria: Notícias gerais

A Conferência virtual Sul, realizada na última sexta-feira(13), foi mais uma oportunidade, promovida pelo SINPAF, para envolver a sociedade no debate sobre ciência e tecnologia na construção de um país menos desigual, agroecologia, recentes cortes orçamentários e ações ressignificativas para a pesquisa pública, diante do atual cenário de crise.

Dividido em duas mesas de debates, o evento foi moderado por Gervásio Paulus, Engenheiro Agrônomo da EMATER/RS, e por Simone Bianchini, Engenheira Agrônoma da EPAGRI/SC.

No primeiro momento, Carlos Rogério Mauch, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) abordou o papel da ciência e tecnologia nos últimos quatro anos e medidas políticas, adotadas pelo governo federal, que estão precarizando o desenvolvimento desse setor. “Entre 2018 e 2019, nós tivemos brutais cortes em investimentos e a precarização da C&T. E isso quase levou à extinção do Ministério de Ciência e Tecnologia, que passou a ter um papel absolutamente secundário dentro do grupo de ministérios do governo federal”, explicou Mauch.

O professor da UFPel relatou ainda que, paralelamente ao quase desaparecimento do Ministério de C&T, aconteceram cortes significativos nas agências nacionais de fomento à pesquisa e que isso impactou severamente no programa de formação de novos profissionais nessa área. “As universidades federais foram desacreditadas pelo governo, que em seguida propôs o programa "Future-se", que é privatização das universidades públicas. Uma ameaça concreta ao ensino de pesquisa público federal e outras instituições, como a Embrapa, e que traz um visível risco ao desenvolvimento de C&T brasileiro.

Segundo Mauch, a lógica de cortes de gastos passada à opinião pública é muito inteligente, mas leva ao engano. São as instituições de pesquisa que contribuem para o desenvolvimento do país e que ajudam a combater desigualdades de gênero, etnia, econômica, regional, entre outras.

“Como vamos debater as desigualdades no Brasil, que aumentaram significativamente a pandemia do novo coronavírus. Nós precisamos de políticas públicas fortes e que visualizem essas desigualdades. A inclusão é um tema muito caro para nós. Precisamos investir em educação, saúde e em desenvolvimento de pesquisa, trabalhar a ciência. E o Brasil não faz por uma visão política contrária. As forças sindicais sinalizam que nós precisamos mudar o nosso rumo. Sim, nós precisamos defender uma Embrapa pública, precisamos defender todas as instituições de pesquisa pública”, enfatizou Mauch.

Nessa mesma equivalência usada pelo governo de desacreditar as instituições públicas para depois privatizar, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Niederle, falou sobre a recorrente propagação de que, mundialmente, é o setor privado que produz pesquisa agropecuária e que a esfera pública já não tem mais relevância. “Equívoco! Nos Estados Unidos, 60% dos recursos para pesquisa nos institutos e universidades são proveniente do governo. 25% são recursos próprios dessas instituições e apenas 6% são investidos pelo setor privado, segundo dados da Associação Americana para o Avanço da Ciência. Na Europa é ainda maior: 70% dos recursos destinados para pesquisa são do governo. E o setor privado também tem participação de apenas 6%. A diferença, no caso da Europa, é que as universidades captam muito pouco, apenas 3%”, revelou Niederle.

No segundo painel de debates, Alessandra Matte, professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), compartilhou caminhos alternativos com base em oportunidades, parcerias e ações ressignificativas para a produção científica nacional.

“A situação que a Embrapa vem passando é a mesma de outras instituições de pesquisa, um processo de deslegitimação, falta de credibilidade, questionamentos, sucateamento, corte de recursos. Esse cenário reflete também o pouco conhecimento da sociedade sobre o que essas instituições têm feito”, afirmou Matte.

Porém, de acordo com Alessandra, esse momento representa também uma oportunidade para a comunidade científica se reavaliar, repensar e ressignificar. “Podemos aproveitar esse contexto como uma oportunidade. O primeiro resultado disso são esses eventos realizados pelo SINPAF, em todas as regiões brasileiras, para legitimar a importância da Embrapa e demais instituições de pesquisa”, disse.

Ernesto Kasper, gerente de Relações Institucionais e Sócio-Fundador da ECOCITRUS, e José Pedro Trindade, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, também compartilharam essa mesa de debates.

Com ampla experiência na agricultura, Kasper chama a atenção para que o trabalho das cooperativas, dos agricultores, seja reconhecido. “A nossa experiência prática precisa ser convertida para algo documental. A pesquisa também deve ser construída no caminho inverso: do campo para as instituições”, ponderou.

O pesquisador da Embrapa finalizou as discussões ratificando que ações de pesquisa devem ser produzidas em parceria com os agentes públicos, a exemplo dos produtores, entre outros. “Ciência se faz com pessoas e para pessoas, para que tenhamos qualidade de vida e desenvolvimento da sociedade”.

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