Conferência Nacional do SINPAF promoveu debate sobre o papel da ciência e tecnologia e as demandas dos povos tradicionais e agricultores familiares no Dia Internacional dos Direitos Humanos

Conferência Nacional do SINPAF promoveu debate sobre o papel da ciência e tecnologia e as demandas dos povos tradicionais e agricultores familiares no Dia Internacional dos Direitos Humanos

Por: Camila Bordinha | | Notícias gerais

No Dia Internacional dos Direitos Humanos – 10 de dezembro (quinta-feira), no qual foi celebrada a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, o SINPAF realizou a sua primeira Conferência Virtual Nacional. O evento promoveu o debate sobre o papel da Ciência e Tecnologia como estratégia de desenvolvimento, e as demandas da pesquisa agropecuária pública por representantes de quilombolas, de indígenas e de agricultores familiares.

O coordenador Executivo da AS-PTA e membro do núcleo executivo da Articulação Nacional em Agroecologia (ANA), Paulo Petersen, fez uma análise crítica sobre a lógica da produção e consumo do sistema agroalimentar industrializado, que possui grande concentração econômica e poder em poucas corporações que ditam as agendas institucionais de pesquisa, mostrando como é possível criar caminhos para o desenvolvimento da inovação científica e tecnológica alimentar brasileira.

De acordo com Petersen, é possível construir outro tipo de conhecimento para orientar a implementação de políticas públicas que visibilizem ações que dialoguem com as representações e atores sociais, criadores da agricultura (quilombolas, comunidades indígenas, agricultores familiares, dentre outros).

“A Ciência não é colocada a serviço do público não só porque não tem financiamento, mas porque está condicionada a interesses de grandes grupos econômicos e toda vez que o cientista/pesquisador tenta sair desse condicionamento é violentamente atacado e, eventualmente, até perde o emprego nessas instituições”, denunciou o especialista.

O escritor, militante dos Direitos Humanos e Assessor da FAO-ONU para Segurança Alimentar e Nutricional, Frei Betto, explicou sobre a era que chamou de “capitaloceno”, na qual os interesses do capital, do dinheiro e do mercado condicionam todos os aspectos da vida humana e da natureza, em torno da apropriação privada e da riqueza para poucos. Para ele, a ética é a questão de fundo quando se fala sobre Ciência e Tecnologia e afirmou, ainda, que, com atropelamentos do capital na modernidade, houve uma perda de conexão com a natureza.

“Essa ideologia capitalista neoliberal de mercantilização de todos os aspectos da vida, de privatização, incluindo a ameaça que a Embrapa sofre de ser privatizada, a principal questão hoje, além da defesa da natureza, do ponto de vista da humanidade, é o combate à desigualdade social”, afirmou Frei Betto  apresentando dados alarmantes sobre a distribuição de riqueza no mundo - 1% das pessoas com 50% da renda mundial e, na outra ponta, 50% da população dividem apenas 1% da riqueza global para sobreviver.

Sobre as 180 mil vítimas da pandemia do novo coronavírus no Brasil, Frei Betto também informou que a fome é outra pandemia, que mata 24 mil pessoas por dia (9 milhões por ano) no mundo, mas que não há mobilização para ser erradicada, pois faz distinção de classe, diferentemente da Covid-19.

Para Frei Betto, por meio da execução de Ciência e Tecnologia éticas para a promoção de igualdade social e erradicação da fome, é “função da Embrapa como empresa Pública, Democrática e Inclusiva, estabelecer a conexão com as(os) agriculturas(es) tradicionais, como os povos indígenas e das tradições que vêm da agricultura familiar, que produz a maioria do alimento que vem
à mesa do nosso povo.”

QUILOMBOLAS

Na mesa vespertina da Conferência Virtual Nacional do SINPAF, Kátia Penha, do Quilombo Divino Espírito Santo e membro da Coordenação Nacional da CONAQ, falou sobre a importância de uma Embrapa Pública, Democrática e Inclusiva como parceira para agregar tecnologia e conhecimento aos territórios quilombolas, de forma respeitosa às suas culturas, ao manejo, ao modo de viver e, principalmente, aos cientistas desses territórios, que são os quilombolas mais velhos.

De acordo com Kátia Penha, existem mais de 6 mil comunidades quilombolas no Brasil, que abrigam o total de 6 milhões de brasileiros em todos os biomas do país, que lutam diariamente para que sejam visíveis para o Estado e possam ter acesso às políticas públicas.

“Na atual realidade que estamos, em que o governo diz que não vai regularizar sequer um palmo de terra para quilombola, e quando todas as políticas de fortalecimento, fomento e pesquisa da agricultura familiar foram retiradas, estamos tentando dar visibilidade e nos incluirmos em todos os segmentos, para que a democracia chegue e nos respeite como sujeitos, não como objeto de pesquisa, como nós fomos nos últimos anos”, afirmou a representante quilombola.

POVOS INDÍGENAS

A liderança indígena de base da COIAB/APIB, Kleber Karipuna, contextualizou sobre a situação dos povos indígenas com o atual Governo Federal, que possui um alinhamento com a Funai e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para produção de alimentos em larga escala e com maquinário em território indígena, contrariando a cultura e a tradição da população indígena.

De acordo com Karipuna, a Funai assinou um termo de cooperação técnica com a Embrapa para trabalhar a pesquisa e extensão nas comunidades. Entretanto, o indígena afirmou que essa é uma situação preocupante, pois a expansão das terras para produção em larga escala tem sido combatida pelas lideranças do nosso povo.

“A nossa relação com o território está muito alinhada e ligada à relação da sobrevivência física, mas também cultural, tradicional, espiritual e cosmológica”, explicou a liderança indígena.

Por isso, Kleber Karipuna afirma que os indígenas querem sim o apoio do governo, seja municipal, estadual ou federal, e até do próprio setor privado, mas respeitando o modo de vida, as tradições e a cultura que envolve a produção de alimentos das comunidades. “Vamos continuar resistindo a este tipo de trabalho que não respeita a cultura e a tradicionalidade dos povos nas comunidades indígenas”, afirmou Kleber Karipuna.

Segundo a liderança indígena, é importante ter uma Embrapa próxima dos povos tradicionais para potencializar a forma com a qual cada um trabalha a produção do seu alimento e que espera de uma empresa pública, aberta, participativa, com o envolvimento da comunidade e da sociedade brasileira como um todo, para disponibilização de todo o seu conhecimento.

AGRICULTORES E AGRICULTORAS FAMILIARES

Encerrando as discussões da Conferência Virtual Nacional do SINPAF, o dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Gilmar Mauro, fez uma breve apresentação do contexto econômico e social mundial e brasileiro, no qual apontou grandes crises planetárias agravadas pela lógica capitalista do lucro e a concentração de capital.

De acordo com Gilmar, três grandes frentes de acumulação vão impactar fundamentalmente na pequena agricultura camponesa no Brasil: o rentismo financeiro, o comércio de serviços (mais fácil importar do que produzir aqui) e a produção de commodities agrícolas e minerais.      

“É essa lógica do capital, evidentemente, que vai provocar uma disputa muito acirrada cada vez maior pelos territórios, seja do ponto de vista econômico, social, cultural, ideológico etc, numa tentativa de derrotar os povos indígenas, sua cultura, quilombolas, sem-terra, e assim por diante”, disse Gilmar Mauro.

Dentro da questão da Embrapa, Gilmar Mauro elencou três capítulos para serem trabalhados: o conhecimento como patrimônio da humanidade; a agroecologia; e a possibilidade de produzir e socializar novas tecnologias que garantam produtividade, gerem o menor impacto ambiental possível e que ajudem a diminuir a penosidade do trabalho agrícola dos agricultores familiares.

“É preciso tecnologias acessíveis à pequena produção já que grande parte da pesquisa tecnológica é destinada ao agronegócio com os impactos ambientais, econômicos e sociais decorrentes. E essa perspectiva nós queremos construir juntos com vocês, trabalhadores e trabalhadoras da Embrapa, e fazer com que seja acessível a todos e todas, numa perspectiva de construir tecnologias que nos ajudem a resolver os graves problemas, inclusive dos centros urbanos”, sugeriu o dirigente do MST.

“A humanidade corre risco, a sobrevivência do planeta é uma questão fundamental, e o capitalismo é irreformável e insustentável, é preciso pensar um projeto pós-capitalista e aí tem um aspecto político para todos e todas nós”, afirmou Gilmar Mauro.

Clique aqui e tenha acesso aos vídeos da Conferência Virtual Nacional e de todas as outras Conferências regionais realizadas pelo SINPAF.

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